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Adolescente fingiu estar morto para sobreviver em crime na Vila Olavo Costa
11-04-2018
Cidade
Garoto de 13 anos, que teve as mãos decepadas, teve dois irmãos, de 18 e 19 anos, assassinados no ano passado e falou à Tribuna sobre dificuldades

“Eu estudava, estava no quinto ano. Agora tenho que seguir, né?”, disse com tristeza nos olhos o adolescente de 13 anos que teve as duas mãos decepadas com facão em tentativa de homicídio no dia 27 de março na Vila Olavo Costa, na Zona Sudeste de Juiz de Fora. O crime com terríveis requintes de crueldade chocou pela frieza e maldade. Com faixas enroladas nas extremidades dos braços, o garoto revelou à Polícia Civil, em depoimento nesta terça-feira (10), ter fingido estar morto no chão para sobreviver. Ainda com pontos e fortes cicatrizes espalhados pela face, pescoço, braços e costas, o jovem falou à Tribuna sobre as dificuldades que passou a enfrentar para atividades até então simples no seu dia a dia, como comer e tomar banho sozinho. Ele chegou à 1ª Delegacia Regional, em Santa Terezinha, acompanhado da mãe, uma catadora de recicláveis de 39 anos, e do irmão caçula, 2. Os dois mais velhos, de 18 e 19 anos, foram assassinados no ano passado. A tragédia familiar escancara, mais uma vez, a vulnerabilidade da Olavo Costa, um dos bairros mais violentos da cidade, conforme mostrado na série de reportagens “Vidas perdidas – um raio X dos homicídios em JF”, publicada em janeiro.




O adolescente ficou com a voz trêmula ao falar do futuro e admitiu ter medo de continuar vivendo no mesmo bairro. A mãe dele lembrou o momento tenso em que soube do ataque.


A catadora é viúva e segue batalhando, com apoio de sua mãe.”Pra mim, quem fez isso não é nem gente. Vivia chamando meu filho para fazer favor. Se os homens da Terra não agirem com Justiça e, de hoje para amanhã, ele (o suspeito) sair da cadeia, sei que vai ser muito deboche. Costumam soltar foguete e fazer churrasco para comemorar. Que pelo menos tenha Justiça de Deus pela maldade que fez com uma criança de 13 anos. Estou passando o maior aperto. Vivemos com dificuldade. A pessoa para quem eu vendo recicláveis é quem me ajuda.”


Embora afirme estar tendo o acompanhamento de uma assistente social da UBS do bairro, a mulher anseia por mais acolhimento por parte do poder público. “Eu espero que façam o que puderem, colaborem, para ele ter recursos.” A catadora pondera que até para ter auxílio é difícil. “Eu recebia uma cesta básica, mas tive que abrir mão porque era ameaçada. Então nem ajuda podemos ter. É muito difícil viver lá”, desabafou. Em relação ao apoio do poder público, a Secretaria de Desenvolvimento Social (SDS) afirmou, por meio de nota, que a mãe do adolescente pode ir até o órgão, que fica na Rua Halfeld 450, Centro. “São oferecidos diversos serviços para a população, através de um Cadastro Único (CadÚnico). A família tem direito, caso se enquadre nos critérios socioeconômicos, ao Bolsa Família e Tarifa Social, que permite desconto nas contas de água e luz. Além desses benefícios, a mãe do adolescente pode procurar o Centro de Referência em Assistência Social (Cras) do seu bairro, para, então, o jovem ser encaminhado para programas sociais, como Promad, Jovem Aprendiz etc. A SDS está à inteira disposição para auxiliar a família através dos programas sociais existentes”.




Violência continua sem inauguração do Fica Vivo


O primeiro filho da catadora de recicláveis a ser assassinado foi um jovem, 18. Ele morreu no HPS no dia 17 de fevereiro do ano passado após ser baleado com dois tiros, no tórax e abdômen, no dia 3 de janeiro, depois de sair de uma padaria na Rua Abílio José Gomes, na Vila Ozanan, Zona Sudeste. Já o irmão, 19, foi assassinado com disparos de pistola 9mm na face em via pública, em 9 de agosto de 2017, na Rua Hortogamini dos Reis, mesma via onde o adolescente foi mutilado. O atirador teria chegado ao local em um veículo prata, na companhia de pelo menos um comparsa. O crime estaria ligado à rivalidade entre grupos. “Se envolveram, né, não adiantava eu falar. O pai deles morreu do coração, e tenho ajuda da minha mãe. Fizemos de tudo, mas não escutavam. Achavam que a vida deles estava boa, entendeu? Foram se envolvendo com quem não deviam.”




Entre 2012 e 2017, 46 pessoas foram executadas somente na Olavo Costa, conforme mostrado pela Tribuna em janeiro na série “Vidas perdidas – um raio X dos homicídios em JF”. Somando o entorno com as vilas Ideal, Ozanan e o Bairro Furtado de Menezes, os óbitos chegaram a 86, mais de um décimo do total de assassinatos contabilizados em todo o município no mesmo período. A esperança de mudança no destino dos moradores, sobretudo dos jovens, marcado pelo assédio do tráfico frente à realidade social, é o Fica Vivo. Há quase um ano o Governo estadual promete o início das atividades do programa de prevenção a homicídios, voltado para a faixa etária entre 12 e 24 anos. A inauguração chegou a ser marcada para o mesmo dia em que o adolescente teve suas mãos mutiladas, mas foi cancelada. A Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) ainda não agendou nova data. A pasta garante que as equipes do projeto estão nas ruas desde janeiro realizando os levantamentos necessários para o início das oficinas.




Para delegado, autor tentou também decapitar vítima


As investigações sobre a brutal tentativa de homicídio envolvendo o adolescente de 13 anos, que teve as duas mãos arrancadas covardemente, prosseguem na Delegacia Especializada de Homicídios. Para o delegado Rodrigo Rolli, as circunstâncias do crime relatadas pelo jovem em depoimento e o corte profundo sofrido por ele na nuca levam a crer que o criminoso pretendia também decapitar a vítima. As declarações ainda apontam a existência de uma possível coautoria para o delito, porque o facão usado pelo agressor teria sido entregue a ele por uma terceira pessoa.




“O garoto contou que estava na rua, na companhia de dois outros jovens, na porta da casa do autor. O adolescente estava de muletas, porque tinha quebrado a perna há pouco tempo, e o rapaz já saiu dando um chute para derrubá-lo, dificultando a defesa. Descobrimos, através da oitiva, que o autor gritou pedindo a outro morador para levar a faca”, contou Rolli.


Antes da fuga, o homem ainda teria ameaçado matar “os outros envolvidos”. “O derradeiro golpe foi em uma região fatal, inclusive com a finalidade de decapitar o garoto. A cicatriz é enorme”, destacou o policial.


O suspeito, 31, da ação macabra foi preso pela Polícia Civil no dia 3, após o Tribunal do Júri decretar a prisão temporária. Em depoimento, o investigado confessou o crime e alegou legítima defesa. Ele afirmou ter sido cercado e ameaçado de morte pela vítima e por outros dois indivíduos na manhã daquele dia. Posteriormente, teria discutido com o jovem que, na versão dele, estaria armado com um facão. O homem afirma ter conseguido desarmá-lo e feri-lo com o mesmo instrumento. Segundo o delegado, o suspeito tem passagens na polícia por danos patrimoniais, porte ilegal de arma de fogo e roubo. “Como já falamos, não acreditávamos nessa hipótese de legítima defesa. Vamos agora ouvir os outros dois jovens que estavam na companhia da vítima no dia do crime”, informou Rolli.


Adolescente nega ter sido informante


A tentativa de assassinato contra o adolescente pode ter sido praticada como vingança ao duplo homicídio ocorrido três dias antes também na Rua Hortogamini dos Reis. O suspeito de decepar as mãos do garoto é parente de Elder Luiz Diógenes Justino, 26, executado no interior de um bar com oito tiros, e principal alvo do duplo assassinato, que também tirou a vida de Washington dos Reis, 38, encontrado morto com três perfurações à bala, próximo ao bar. “O Washington morreu porque passou na hora pelo local”, esclareceu o delegado.




“Confirmamos a dupla autoria de execução, são dois adolescentes. Tem a ver com mortes anteriores ocorridas no próprio bairro, inclusive de parentes desses autores.” Ainda conforme a Polícia Civil, Elder teria saído recentemente do sistema prisional, e o retorno dele teria retomado os conflitos na região. “Os adolescentes foram fazer represália. Temos a informação de que foram expulsos do bairro depois do crime porque atraíram a polícia para o local.”




Sobre a suspeita de a vingança ter sido praticada pelo agressor acreditar que o garoto havia informado aos executores a localização das vítimas do duplo assassinato, Rolli reafirmou ser esta a hipótese mais provável. “O adolescente nega ter sido o informante. Disse que apenas foi perguntado na rua se teria visto o Elder, mas afirmou não saber que estavam indo matá-lo.”




O adolescente recebeu alta do HPS no último fim de semana. Ele deu entrada na unidade com a mão esquerda ainda dependurada, mas acabou perdendo a extremidade do segundo membro também. O jovem ficou internado em estado grave, sedado e entubado por cerca de uma semana. O suspeito deverá ser indiciado por homicídio qualificado por impossibilidade de defesa da vítima e por ter utilizado meio cruel. A polícia ainda investiga quem seria o coautor, responsável por entregar o facão.




Espantado com a brutalidade do caso, apesar de sua experiência na área, Rolli pontuou que o poder público deveria fazer um acompanhamento do garoto.


Jovem tem os dois olhos alvejados por tiros


A barbárie parece não ter limites na Vila Olavo Costa e, menos de duas semanas depois de o garoto de 13 anos ter perdido as mãos cortadas com facão, outro jovem, 25, sobreviveu após ser alvejado por tiros nos dois olhos. O crime aconteceu no fim da tarde de segunda-feira (9). De acordo com informações da Polícia Militar, a vítima foi alvo de diversos tiros na Rua da Fé. Os disparos também atingiram sua nuca e duas vezes a região dorsal. O jovem foi atendido pelo Samu e encaminhado ao HPS.




Conforme a PM, o baleado foi socorrido consciente e, no trajeto até o hospital, relatou que o atirador agiu “na covardia”, atirando pelas costas. O criminoso seria conhecido da vítima. Segundo a assessoria da Secretaria de Saúde, o paciente ficou internado na sala de urgência, sedado e em estado grave. Militares fizeram rastreamento pela região, mas nenhum suspeito foi preso. A polícia também não encontrou vestígios na cena do crime, e nenhuma informação foi repassada por populares, devido ao temor de represálias.




O caso também é investigado pela Delegacia Especializada de Homicídios. “A região voltou, infelizmente, a ficar violenta. Vamos apurar, mas, aparentemente, foi um fato isolado e não tem relação com esses outros”, analisou o delegado Rodrigo Rolli. “É mais uma demonstração de crueldade”, concluiu.

 

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